Paris dos perfumes – O resgate da perfumaria natural parte 1

Paris dos perfumes – O resgate da perfumaria natural parte 1
16 de agosto de 2019 Angélica Flores

Como muitos de vocês já sabem, estou fazendo o caminho de RESGATE DA PERFUMARIA NATURAL.* Trata-se de um projeto independente, o qual foi iniciado em maio de 2018, na França. Neste ano, em novembro, embarco em uma nova experiência, dando continuidade a esse caminho de resgate. Ano passado, não pude compartilhar todos os detalhes da viagem, por isso decidi começar a relatar antes de eu partir novamente à França, dessa vez com uma temporada em Grasse, capital mundial dos perfumes. Desejo que vocês apreciem cada linha e me acompanhem nessa perfumada e misteriosa viagem, cujo destino eu deixo que a vida e o meu coração me revelem durante esse longo caminho.

O INÍCIO DA JORNADA: uma primavera de estudos

sunny morning and Eiffel Tower, Paris, France

Paris dos Perfumes 

Aqui começa a história.
Pode soar um pouco romântico, se você pensa na cidade com o ar clichê de cinema. Pode parecer óbvio, se você lembra da França como o país dos perfumes. Quando eu era criança, acreditava que na França tinham inventado o perfume, mas logo no começo de meus estudos, descobri que não. Mas tudo bem, afinal esse charmoso pays des parfums contribuiu e ainda contribui muito com os estudos da perfumaria. E é justamente por ser referência mundial em perfumes, que eu começo aqui as minhas pesquisas. Sei que aqui acessarei informações que me levarão a descobrir novos lugares que ainda não descobri nos livros, mas que certamente me guiarão no caminho do resgate da perfumaria natural, essa arte antiga, mística e sofisticada à qual eu fui apresentada e com a qual tenho o privilégio de trabalhar. A mim, a vida trouxe o chamado e o convite de compartilhar sua sutil beleza, a beleza da natureza, em reconexão com um sentido tão valioso, que há muito se perdeu: o olfato. Refazer o caminho da perfumaria é um regaste mais profundo do que parece à primeira vista: é o resgate das nossas próprias emoções e da nossa capacidade de sentir. Pode parecer estranho, mas a viagem à França é o início da “volta para a casa”, do reencontro profundo com algo que ainda não posso descrever. E Paris é apenas uma primeira parte da jornada, o início do percurso. O principal motivo da viagem é a masterclass em Candes-Saint-Martin. Aliás, ficara evidente para mim que era nessa cidade que eu deveria aprofundar meus estudos, viera dali o primeiro chamado que me guiou a essa viagem. Mas para ir até Candes-Saint-Martin é necessário fazer escalas, então decidimos desfrutar de algumas paradas antes de chegar lá. Primeiro em Paris e depois em Saumur, cidade que eu pensava não ter nada a ensinar sobre a perfumaria, mas que me surpreendeu − e muito – proporcionando-me um primeiro grande ensinamento, que eu ainda contarei a vocês.

Paris é linda na primavera. Quem me conhece sabe que eu prefiro os lugares mais calmos e, da melhor maneira que pude, me preparei para viver um clima agitado, mas fui agraciada com um dia de feriado, ou seja: ruas vazias, cidade tranquila, ideal para explorar com serenidade. Confesso que suas ruas não são assim tão perfumadas, mas as boutiques des parfums estão por todos os lados. Chegando ao prédio onde alugamos um apartamento, meu celular não funciona, não tenho o número do apartamento e não posso falar com a Audray, a proprietária. Guilherme, meu marido, disse que suas experiências na França não foram boas, pois os franceses não são muito solícitos, mas eu estava tendo uma impressão realmente diferente, pois fomos recepcionados por uma adorável senhora, que ficou feliz em nos ajudar e por conversarmos com ela em sua língua.  Ela conseguiu localizar Audray, para nossa sorte. Entrar no apartamento onde passaríamos os próximos dias foi inesquecível: uma vela perfumada na entrada, um frasco de perfume decorando a mesinha ao lado da cama, o cheiro de roupa limpa e o ar fresco entrando pela janela. Esse simples e simpático apartamento nos acolheu muito bem em nossos primeiros
dias em Paris.

Angélica Flores, no Musée Fragonard. Maio, 2018.

Preciso comprar um kit básico com xampu, condicionador e sabonete. Vou ao mercado mais próximo, pois estou cansada da viagem e tudo o que quero é descansar. O mercado era pequeno e me encanto com a quantidade de produtos de banho feitos com ingredientes e essências naturais. Parece que minha pesquisa começa ali. Mas a minha dúvida mais insistente era: “Por que não temos esses produtos no Brasil?”. Fico intrigada, mas feliz ao mesmo tempo, por tais descobertas.
No dia seguinte, o sol de primavera estava mais tímido do que no dia anterior e os termômetros registravam seis graus. Nada de visita à torre Eiffel, eu quero a Paris dos perfumes. Começo pelo Musée du Parfum Fragonard, que conserva pelo menos cinco mil anos de história dos perfumes. Primeiro, noções sobre métodos de extração de essências naturais à moda antiga. Um passeio pela história através de perfumes únicos. As diversas utilizações do perfume: em rituais sagrados, de forma medicinal, para seduzir, para auxiliar em hábitos de higiene etc. Tudo sendo retratado pela arte. A maioria das informações eu já havia encontrado em livros, mas ver o perfume sendo expressado por diversas formas de arte me encantou. De frascos de época e quadros icônicos às essências raras: a história da perfumaria nas paredes. Porém, não havia grandes filas para a visitação do espaço… Havia mais gente dentro da Boutique Fragonard do que em seu museu.

Claro que, depois da visita ao museu, a última etapa é a loja. A Fragonard carrega mais a cara de Grasse, trazendo características artesanais em seus produtos, mas com toques atuais. Grasse é a capital mundial do perfume e carrega um ar antigo, porém muito sofisticado. Lá nasceu a boutique Fragonard. A vendedora me disse que eles têm uma linha de perfumes naturais, a qual ela me apresentou. Bem, as fórmulas não são 100% naturais, porém há uma grande quantidade de essências naturais raras utilizadas em suas composições.  São fragrâncias simples, mas muito elegantes. Carregam a cara da casa de perfumaria fundada em 1.926.

Tento buscar a perfumaria natural nas ruas de Paris, nos museus, nas casas de perfumaria, mas só a encontro, até o momento, em produtos de banho no mercado e misturadas às essências sintéticas no Museu Fragonard. Não tenho mais muito
tempo na cidade, em um dia partirei para o Val de la Loire. Lá irei encontrar o Mestre
Perfumista Nicolas de Barry. Há meses lhe escrevi para perguntar se ele me receberia
em sua masterclass de Parfumerie Naturelle, em Candes-Saint-Martin. Logo eu chego nessa parte. Antes de partir, fui ao Le Grand Musée du Parfum. Esse museu tem uma cara mais moderna e oferece uma experiência sensorial indescritível. Um lugar que me ensinou através dos sentidos: todo aroma tinha uma história e toda história era descoberta através do olfato. Infelizmente, depois que voltei ao Brasil soube que o museu fechou suas portas. A cultura do perfume ainda está sendo construída e passou por oscilações ao longo da história. Mesmo na França, o país que mais se aprofundou nos estudos da perfumaria até hoje, essa cultura passa por momentos de instabilidade. Provavelmente isso se dê em decorrência de como o perfume foi visto em diversos momentos da história: ora glorificado, ora condenado e, por vezes, esquecido. O caminho de resgate se mostra longo e já entendi que não posso ter pressa…

Foram tantos cheiros diferentes no Le Grand Musée du Parfum, mas sinto que um deles fixou muito em mim. Voltei para o apartamento para colocar uma roupa mais quente para passear à noite com o Gui, e o cheiro continuava em mim. Caminhávamos na rua e era um cheiro de flor que me acompanhava − doce, intenso. Não consegui identificá-lo no momento, apenas senti. Combinava perfeitamente com o clima de primavera fria. Por algum motivo, senti vontade de ir embora de Paris o mais breve possível. Sabia que há mais a se descobrir na cidade, mas voltaríamos a ela antes do fim da viagem. Sentindo-me angustiada, acordo com o cheiro da flor, que ainda está em mim. Não entendia como isso estava acontecendo, o cheiro era muito presente, mesmo após o banho matinal. Uma pequena pausa para o café e em seguida pegamos o trem para seguir viagem. Deixar Paris era mais que uma necessidade naquele momento, era um chamado, que vocês entenderão melhor na continuação dessa história.

*O Resgate da Perfumaria Natural é um trabalho desenvolvido por Angélica Flores. Todos os direitos reservados.

Próximo: Desvendando o mistério: o perfume de Acácia de Saumur

FLORES, Angélica. “Paris dos perfumes”. Blog Perfumaria Natural. Curitiba, 16 de agosto 2019. Disponível em: https://www.labriseparfum.com/paris-dos-perfumes/